dezembro 2009 Archives

2009 em discos

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Tope geral

1. Animal Collective - Merriweather Post Pavilion
2. Sunn O))) - Monoliths & Dimensions
3. Emeralds - Emeralds
4. Blues Control - Local Flavor
5. Ben Frost - By The Throat
6. Richard Youngs - Beyond the Valley of Ultrahits
7. Ducktails - Ducktails
8. Major Lazer - Guns Don't Kill People... Lazers Do
9. Morrissey - Years of Refusal
10. Dizzee Rascal - Tongue N' Cheek
11. Richard Youngs - Under Stellar Stream
12. The XX - XX
13. Norberto Lobo - Pata Lenta
14. Sun Araw - Heavy Deeds
15. Ducktails - Landscapes
16. Sir Richard Bishop - The Freak of Araby
17. Tropa Macaca - Sensação do Princípio
18. Real Estate - Real Estate
19. Evangelista - Prince of Truth
20. Six Organs of Admittance - Luminous Night
21. Aquaparque - É Isso Aí
22. Nite Jewel - Good Evening
23. James Blackshaw - The Glass Bead Game
24. Sun Araw - In Orbit
25. Magik Markers - Balf Quarry
26. Mountains - Choral
27. Sonic Youth - The Eternal
28. Manuel Mota - Sings
29. Bill Calahan - Sometimes I Wish We Were An Eagle
30. Grizzly Bear - Vecktimest

Tope português

1. Norberto Lobo - Pata Lenta
2. Tropa Macaca - Sensação do Princípio
3. Aquaparque - É Isso Aí
4. Manuel Mota - Sings
5. The Weatherman - Jamboree Park at the Milky Way
6. Coclea - Beams
7. Old Jerusalem - Two Birds Blessing

2009, ano de "hauntology" vinda do Reino Unido (via Broadcast, que escandalosamente ainda não ouvi, e movimentações dubstep e pós-dubstep), mas sobretudo dos Estados Unidos, via Ducktails, James Ferraro, Spencer Clark, Nite Jewel, Gary War. 

Ariel Pink (a par de Ferraro, guia espiritual desta juventude) esteve calado, mas assinou pela 4AD, oficializando a tendência (a que David Keenan chamou de hypnagogic pop - muitos não gostaram do rótulo, eu acho que o artigo faz todo o sentido). 

Ducktails tiveram dois álbuns de brilhantemente modestas jams de quarto (sonhadoras, simples), James Ferraro prosseguiu os seus estudos sobre a degradação, projecção e invenção da memória, da adolescência, Nite Jewel deu-lhe um tom dançável, de club, Gary War fez canções noise a partir da pop (e vice-versa). 

E há Oneohtrix Point Never (no qual começo a mergulhar) e Emeralds na outra ponta, menos pop, mais neo-new-age, do fenómeno. 

Música de fantasmas, memórias fixadas em VHS de fita corroída pelo tempo, canções feitas entre o sonho e a realidade vista a partir de quartos com equipamento de gravação barato, imagens mentais de praias. Tudo isto ao mesmo tempo ou em doses individuais.

Faltou um disco de GÉNIO a esta gente? Talvez (se bem que a Wire ponha "Rifts" de Oneohtrix bem nas alturas), mas foi isto que animou o cenário indie.

Morreu Jack Rose - RIP

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Notícia muito triste: morreu Jack Rose

Recupero uma entrevista que lhe fiz para o então Y, algures em 2006.

excursões pelo desconhecido 

A solo ou nos Pelt, Jack Rose é um dos agentes mais activos e importantes da moderna "psicadelia" vinda de solo norte-americano. "(Untitled)" dos Pelt ou "Kensington Blues" demonstram que tradição e experimentação não são qualidades musicais incompatíveis. 

Pedro Rios 

Falar em tradição e experimentação a Jack Rose, um dos veteranos Pelt e autor de uma notável discografia a solo, é tocar-lhe num ponto sensível. Não sem razão, diga-se: passaram 40 anos desde que John Fahey e Robbie Basho resolveram pegar na folk e nos blues e explorar a liberdade existente nas formas tradicionais da música americana, cruzando-as com outras tradições musicais (como a música indiana ou a erudita). Ciente do que fazia, Fahey chamou a um dos seus temas "Guitar excursions into the unknown" .

"(Untitled)" dos Pelt e "Kensington Blues", a solo, revelam duas faces de uma mesma atitude perante a música. Se com os rapazes de Richmond, Virgínia, pioneiros da chamada "New Weird America" e da moderna "psicadelia", é a improvisação que sustenta os seus longos temas, nos discos em nome próprio a composição assume cada vez mais uma preocupação para Jack Rose.

Contudo, ambos os canais criativos são, segundo o músico, igualmente exploratórios. "Nunca penso na música em termos de tradição ou experimentação. Para mim é apenas música", diz Jack Rose ao Y. "Música é música e é sempre exploratória. Tanto Charley Patton como os Borbetomagus têm o mesmo efeito quando os estou a ouvir - ambos transmitem-me sentimentos de raiva, tristeza, frustração, o que quer que seja. Ambos são inovadores e soam-me contemporâneos".

"Kensington Blues" foi todo gravado ao primeiro "take", facto demonstrativo da técnica apurada de Rose, que teve contacto com a guitarra através dos discos de Mississippi John Hurt, Blind Willie Johnson, Rev Gary Davis e Bukka White, com 12 ou 13 anos.

É o disco de Rose que mais remete para John Fahey. Logo no tema inicial, o lado alegre dos primeiros discos do saudoso e genial guitarrista salta do "fingerpicking" de Rose e há até uma versão mais acelerada de "Sunflower river blues" (tema que os Pelt chegaram a gravar nas sessões de "Pearls from the River"). À primeira vista, a semelhança podia ser entendido como uma homenagem. A influência é assumida, mas o conhecimento profundo que Rose tem da obra de Fahey permite-lhe ser mais do que um mero copista. "Penso que a minha versão de 'Sunflower river blues' pode ser vista como um tributo. É uma das minhas canções favoritas e achei que era altura de gravá-la", reconhece. Mas defende: "Qualquer bom artista ou grupo tem em conta o que vem atrás dele. A palavra 'homenagem' pode indicar que o que eu faço é copiar Fahey. Ouvi a música dele durante anos, integrei-a em mim e sempre que toco será evidente que ele tem uma enorme influência em mim. Honra-me ser mencionado ao lado dele, mas Fahey é apenas uma peça - uma grande peça - do meu ADN musical". Rose afirma ainda que o legado de Robbie Basho (que editou na Takoma, de Fahey) é importantíssimo: "as peças com 12 cordas são muito influenciadas por ele, tanto na técnica, como na composição".

A abordagem perante a guitarra acústica tem valido a Jack Rose comparações à nova geração de guitarristas, onde se incluem Ben Chasny (Six Organs of Admittance), Sir Richard Bishop (dos Sun City Girls), Steffen Basho-Junghans, Glenn Jones, James Blackshaw, entre outros. "Estou feliz por existirem algumas pessoas a tocar guitarra acústica de forma não new age. Guitarristas como [Leo] Kottke, [Will] Ackerman, [Michael] Hedges e outros não acrescentaram nada a Basho e Fahey. Não consideraria Chasny ou Bishop como seguidores da Takoma porque há muito mais na música deles que apenas Fahey ou Basho. O Rick [Bishop] não soa a um guitarrista da Takoma. Ele foi uma grande influência para mim mesmo antes de ouvir Basho ou Fahey. Sou fã dos Sun City Girls há 10 anos - com excepção do Roy Buchannan, o Rick e o Alan [Bishop] foram os primeiros americanos que ouvi a fazerem ragas e coisas influenciadas pelo médio oriente na guitarra", revela.

Jack Rose viajou com Glenn Jones, no ano passado, pela Europa, numa digressão que passou por Portugal. O convívio demorado com o membro dos Cul de Sac, com quem os Pelt já haviam colaborado, contribuiu para a abordagem mais composicional de "Kensington Blues", quando comparado com os álbuns anteriores ("Red Horse, White Mule", "Opium Musick", ambos de 2003, e "Raag Manifestos", do ano passado). "Now that I'm a man full grown II" - um lamento agudo a decorrer ao mesmo tempo que o "fingerpicking" furiosamente rápido nos graves - evoca até directamente a profundidade instrumental e expressiva de "This Is The Wind That Blows It Out" (2004) de Glenn Jones. "É engraçado que o tema te evoque o Glenn porque a técnica dele teve influência em mim desde que o conheci. Aprendi mais sobre composição com o Glenn e os discos e os concertos dele ajudaram-me a afastar da improvisação", diz.

"A maior parte das ideias que estão no disco tinham estado em gestação há uma dar de anos. 'Tex' e 'Crossing the great waters' de 'Raag Manifestos' foram as versões iniciais de "Calais to Dover' e 'Cross the North' respectivamente. Algumas das peças de ragtime apareceram no CD-R de Dr. Ragtime [pseudónimo de Jack Rose dedicado a este género de música tradicional norte-americana] que saiu em 2001: 'Flirtin' with the undertaker' não mudou muito, mas 'Rappahanock river rag' é muito diferente de 'Old country rock'", explica. 

Minimalismo e "hillbilly"

"(Untitled)" é o segundo disco inteiramente acústico dos Pelt, depois de "Pearls from the River" (2003). É o nono "álbum" do quarteto no sentido tradicional do termo, num percurso de 10 anos, que inclui ainda múltiplos CD-R e colaborações.

"Gravámos num gravador digital de oito pistas na minha sala de jantar aqui em Filadélfia. (...) Foi como se estivéssemos a fazer um álbum noise, mas com instrumentos acústicos. Quase todos os sons electrónicos têm um equivalente acústico. Um bom exemplo disso são as gravações de gongos por La Monte Young e Marian Zazeela", diz.

Ao incorporar instrumentos e músicas tradicionais na música experimental, os Pelt resolvem a aparente contradição entre tradição e experimentação, de forma mais evidente que Jack Rose a solo. Por isso, o conhecido crítico "underground" Byron Coley viu nos Pelt o cruzamento entre o minimalismo do Theatre of Eternal Music de La Monte Young e a tradição americana, cunhando-os de "Hillbilly Theatre of Eternal Music". "Essas formas musicais têm o drone [repetição contínua de um som] como elemento comum", diz. Nos Pelt, a música indiana e as suas ragas estão a um passo de distância: "Os blues americanos usam muitos microtons e escalas semelhantes à da música indiana".

No primeiro tema (todas as peças não têm título), a influência do minimalismo é evidente: um longo "drone" (14 minutos) de algo que parece ser um harmónio é pincelado aqui e ali por cintilações eléctricas e névoas de ruído distantes. O terceiro tema induz igualmente o transe, tirando partido das altas frequências obtidas através do "slide" nas guitarras - o efeito é de contemplação extática. A guitarra acústica de Rose é o fio condutor da segunda peça, o tema central de "(Untitled)", com 30 minutos, e talvez aquele em que as múltiplas fontes de inspiração mais se cruzam e transmutam - a peça prossegue com divagações livres de violoncelo e esraj (instrumento indiano).

A improvisação é a matriz de todos as obras dos Pelt, mas "geralmente há um enquadramento ou uma discussão prévia", salvaguarda Rose. "Nunca me considerei um improvisador livre e não estou muito interessado em tocar com pessoas exteriores ao meu círculo, a não ser que elas estejam disponíveis para trabalhar da nossa forma". "(Untitled)" é unicamente produto da banda, reforçada agora com Mikel Dimmick. "Ele viaja connosco há anos como assistente de som e 'roadie'. O Mike [Gangloff] e ele têm um grupo chamado Spiral Joy Band onde o Mikel toca electrónica, gongos e taças de som [instrumento tibetano, também usado nos Pelt]. O Patrick [Best] não pôde viajar connosco na nossa primeira digressão europeia no ano passado e o Mikel entrou para o lugar dele. Depois pareceu natural que ele devia ficar no grupo".

Os Pelt foram, de certa forma, pioneiros da chamada "New Weird America", termo encontrado no ano passado por David Keenan da revista britânica "Wire" para classificar artistas como Matt Valentine ou Sunburned Hand of the Man. 10 anos depois da fundação do grupo, o interessa pelas músicas tradicionais e psicadélicas aumentou? "As coisas estão bem melhores do que há 10 anos atrás. Mesmo assim, os meados da década de 90 foram tempos excitantes porque era muito bom encontrar gente interessada nas mesmas coisas que tu. Principalmente por causa da Internet, há muitos mais fãs e é mais fácil cobrir os custos de viagem e talvez até ganhar algum dinheiro. Mesmo há cinco anos atrás, a ideia de fazer algum dinheiro parecia absurda. Além disso, quase toda a gente nas audiências odiava a nossa música ou ficava totalmente indiferente. Agora podemos tocar em qualquer lado e há quase sempre alguém que é fã".